Como definir o desconto ideal em uma licitação sem comprometer o lucro

Definir o desconto ideal em uma licitação é a diferença entre vencer com lucro ou perder a margem. Aprenda a calcular com precisão e competir com segurança.

8/28/202612 min read

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Como definir o desconto ideal em uma licitação sem comprometer o lucro

Participar de uma licitação envolve uma decisão delicada.

Se a proposta ficar cara demais, a empresa pode perder o contrato para um concorrente mais agressivo. Se o preço ficar baixo demais, pode acontecer algo ainda pior: vencer a licitação e descobrir, durante a execução, que o contrato não gera lucro suficiente — ou pior, gera prejuízo.

Encontrar o equilíbrio entre ser competitivo e proteger a margem é um dos grandes desafios de quem trabalha com licitações na construção civil.

O problema é que, na pressão de um pregão, nem sempre essa decisão é tomada com a calma e os dados necessários. Muitos gestores acabam definindo o desconto com base no histórico informal, na percepção de mercado ou simplesmente no famoso “feeling”.

E preço definido no feeling pode até ganhar uma licitação.

Mas também pode colocar uma obra inteira no vermelho.

Neste guia, vamos mostrar como definir o desconto ideal em uma licitação com mais segurança. Você vai entender como orçamento executivo, BDI, margem mínima, análise de riscos, concorrência e fluxo de caixa se combinam para chegar a uma proposta competitiva — sem transformar a vitória no certame em um problema financeiro.

O problema de precificar pelo “feeling”

“Vamos dar mais 5% e ver se ganha.”

“Esse órgão costuma fechar com desconto alto.”

“Se não baixarmos o preço, não vamos levar.”

Frases como essas são comuns durante uma disputa. O problema é quando elas substituem a análise técnica.

O desconto, por si só, não diz se uma proposta é boa ou ruim. Para saber isso, é preciso entender primeiro quanto a obra realmente vai custar.

Sem essa informação, o gestor não sabe exatamente até onde pode reduzir o preço sem comprometer a margem.

E existem dois riscos nessa situação.

Se o desconto for agressivo demais, a empresa pode vencer e descobrir depois que assumiu um contrato deficitário.

Se for conservador demais, pode perder uma oportunidade que seria lucrativa.

Nos dois casos, o problema não está necessariamente no percentual escolhido. Está na falta de um método para chegar até ele.

O ponto de partida: um orçamento executivo confiável

Antes de pensar em desconto, é preciso responder a uma pergunta muito simples:

Quanto essa obra realmente custa para a minha empresa executar?

Essa resposta vem de um orçamento executivo bem estruturado.

O orçamento precisa considerar quantitativos confiáveis, composições de custos atualizadas, produtividade, mão de obra, equipamentos, materiais, serviços terceirizados e todos os demais componentes que fazem parte da execução.

Também é importante considerar as características específicas daquele contrato.

Uma obra aparentemente semelhante a outra pode ter custos muito diferentes dependendo do prazo, localização, logística, condições de execução e exigências do contratante.

Quando o custo real está bem calculado, fica muito mais fácil estabelecer um preço mínimo viável.

Esse é o número que o gestor precisa conhecer antes de entrar na disputa.

A partir dele, o desconto deixa de ser um palpite e passa a ser uma decisão baseada em dados.

BDI: entender o que realmente está dentro do preço

Outro elemento fundamental nessa conta é o BDI — Benefícios e Despesas Indiretas.

De forma simplificada, o BDI é utilizado para incorporar ao custo direto elementos como despesas indiretas, administração central, tributos, despesas financeiras, riscos e lucro.

Mas é importante entender que o BDI não é simplesmente um percentual que deve ser aplicado de maneira automática.

Ele precisa refletir as características da empresa e do contrato.

Regime tributário, prazo da obra, estrutura administrativa, condições financeiras, riscos envolvidos e características do empreendimento podem influenciar sua composição.

Um BDI mal dimensionado pode distorcer completamente a formação do preço.

Se estiver abaixo do necessário, a empresa pode acreditar que tem margem quando, na verdade, está apenas cobrindo parcialmente seus custos.

Se estiver excessivamente alto, pode tornar a proposta pouco competitiva.

Por isso, antes de decidir o desconto, é importante separar claramente:

o que é custo, o que são despesas e o que representa a margem desejada.

Só assim é possível entender quanto espaço realmente existe para reduzir o preço.

Até onde o desconto pode ir?

Essa talvez seja a pergunta mais importante de toda a precificação:

Qual é o meu limite?

Toda empresa precisa definir uma margem mínima aceitável para cada tipo de contrato.

Esse limite não precisa ser igual em todas as licitações. Uma obra estratégica, por exemplo, pode ter uma lógica diferente de um contrato de alto risco ou com condições financeiras desfavoráveis.

Mas o ponto principal é que esse limite precisa ser conhecido antes da disputa.

Se a empresa só decide isso quando está no meio do pregão, a emoção e a pressão dos concorrentes podem influenciar uma decisão que deveria ser financeira.

Imagine que, depois de todos os custos e despesas, a empresa tenha definido que precisa preservar uma determinada margem mínima.

A partir daí, é possível calcular o preço mínimo pelo qual o contrato ainda faz sentido.

Abaixo desse valor, a pergunta deixa de ser “será que vamos ganhar?” e passa a ser:

“Vale a pena ganhar?”

Essa diferença de perspectiva pode evitar muitos contratos problemáticos.

O desconto ideal depende do contexto

Não existe um percentual universal que possa ser considerado o “desconto ideal” para qualquer licitação.

Cada oportunidade precisa ser analisada individualmente.

Tamanho e atratividade do contrato

Um contrato de grande porte pode permitir uma estratégia de margem diferente de uma obra pequena.

O volume, a possibilidade de diluir determinados custos e a relevância estratégica do empreendimento podem influenciar a decisão.

Nível de concorrência

Quanto mais concorrentes qualificados estiverem disputando o contrato, maior tende a ser a pressão sobre os preços.

Por isso, analisar o histórico de licitações semelhantes pode ajudar.

Quais foram os descontos vencedores? Quantas empresas participaram? Os preços apresentados ficaram muito próximos ou houve grande diferença entre eles?

Essas informações ajudam a construir uma referência mais realista.

Risco da obra

Nem toda obra apresenta o mesmo nível de risco.

Prazo muito apertado, condições complexas de execução, localização difícil, especificações exigentes e dependência de determinados fornecedores podem aumentar significativamente a exposição da empresa.

Quanto maior o risco, maior precisa ser a atenção à margem de segurança.

Capacidade operacional da empresa

Também é preciso olhar para dentro de casa.

A empresa já domina aquele tipo de obra? Possui equipes disponíveis? Tem equipamentos adequados? Tem experiência com aquele cliente ou modelo contratual?

Quando a obra se encaixa bem na estrutura existente, a execução pode ser mais eficiente e previsível.

Isso pode abrir espaço para uma proposta mais competitiva sem necessariamente reduzir a margem.

Não olhe apenas para o preço: analise o fluxo de caixa

Existe outro ponto que muitas vezes fica em segundo plano durante a precificação: quando o dinheiro entra e quando ele sai.

Uma obra pode apresentar uma margem aparentemente interessante no papel e, ainda assim, gerar pressão financeira durante a execução.

Imagine um contrato com medições demoradas, pagamentos longos e retenções relevantes.

Enquanto o contratante não paga, a construtora continua pagando salários, fornecedores, equipamentos, impostos e demais despesas.

Na prática, a empresa está financiando parte da obra.

Esse financiamento tem custo.

Por isso, o desconto ideal precisa levar em consideração não apenas o preço final, mas também as condições de pagamento previstas no contrato.

Às vezes, uma proposta ligeiramente mais alta, mas com um fluxo financeiro mais favorável, pode ser mais interessante do que uma proposta mais barata com pagamentos muito demorados.

O cronograma físico-financeiro é fundamental para enxergar essa diferença.

O que é uma análise de licitação bem feita?

Analisar uma licitação não significa apenas ler o edital e descobrir onde entregar a proposta.

Uma análise completa precisa responder duas perguntas:

Vale a pena participar?

E, se a resposta for sim:

Qual é o preço que devemos apresentar?

Para chegar a essa resposta, é necessário cruzar diferentes informações.

Primeiro, o edital deve ser analisado com atenção, incluindo prazos, obrigações, critérios de medição, penalidades, garantias, condições de pagamento e demais exigências contratuais.

Depois, essas informações precisam ser confrontadas com o orçamento da obra.

É nesse momento que podem aparecer riscos que não são tão evidentes em uma leitura superficial.

Por fim, a empresa consegue estabelecer sua faixa de preço: desde o valor de referência até o limite mínimo que ainda preserva a viabilidade econômica do contrato.

Essa análise transforma a licitação de uma aposta em uma decisão de negócio.

E isso também significa reconhecer que, algumas vezes, a melhor decisão é não participar.

Como calcular o desconto ideal: passo a passo

Embora cada empresa tenha suas particularidades, o processo pode ser organizado em algumas etapas.

1. Calcule o custo real da obra

Comece pelo orçamento executivo.

Quantitativos, custos unitários, produtividade, mão de obra, materiais, equipamentos e serviços precisam estar corretamente dimensionados.

Quanto mais confiável for essa etapa, mais segura será toda a precificação.

2. Estruture o BDI

Defina os componentes do BDI de forma transparente, considerando as características da empresa e do contrato.

O objetivo é chegar a um preço de venda de referência que contemple os custos, despesas, riscos e margem esperada.

3. Estabeleça a margem mínima

Defina qual é o menor resultado que ainda torna o contrato economicamente interessante.

Essa margem deve considerar o risco, o prazo, a estratégia da empresa e as condições do contrato.

4. Analise a concorrência

Pesquise o histórico de licitações semelhantes.

Entenda os descontos praticados, os concorrentes mais frequentes e o comportamento dos preços vencedores.

Isso não significa tentar adivinhar exatamente quanto os outros vão oferecer.

Significa ter uma referência para entender o nível de competitividade esperado.

5. Valide o fluxo de caixa

Analise quando os desembolsos ocorrerão e quando os pagamentos serão recebidos.

Se o contrato exigir que a empresa financie uma parcela significativa da execução, esse custo precisa entrar na decisão.

6. Defina uma faixa de atuação

Em vez de pensar apenas em um número, é mais seguro trabalhar com uma faixa:

  • preço ideal;

  • preço competitivo;

  • preço mínimo aceitável.

Assim, durante a disputa, o gestor sabe exatamente até onde pode ir.

E, principalmente, sabe quando parar.

Exemplo prático: como evitar que o desconto vire prejuízo

Imagine uma construtora participando de uma licitação para uma obra pública com preço de referência de R$ 10 milhões.

Depois de elaborar o orçamento executivo, a empresa estima um custo direto de R$ 8,2 milhões.

Com um BDI de 22%, chega-se a um preço de venda de aproximadamente R$ 10 milhões.

Até aqui, tudo parece simples.

Mas a empresa também estabelece que precisa preservar uma margem mínima de aproximadamente 6% para considerar o contrato economicamente interessante.

Com base nesses parâmetros, ela calcula que o preço não pode cair abaixo de aproximadamente R$ 8,7 milhões.

Isso significa que o desconto máximo ficaria próximo de 13% sobre o preço de referência.

Agora entra a análise de mercado.

Ao estudar licitações anteriores daquele órgão, a empresa percebe que os descontos vencedores costumam ficar entre 10% e 15%.

Com essas informações, decide trabalhar com um desconto de 12%.

O preço é competitivo, mas ainda está dentro da faixa considerada segura.

E se a disputa avançar para além dos 13%?

A empresa sabe que está chegando ao seu limite e pode decidir não acompanhar.

Pode parecer difícil sair de uma disputa quando existe uma oportunidade de contrato na mesa.

Mas é justamente aí que está a importância de definir o limite antes.

Ganhar uma licitação com margem insuficiente não é necessariamente uma vitória.

O perigo de vencer a qualquer custo

Existe uma tentação muito grande em algumas disputas: baixar o preço só mais um pouco para garantir o contrato.

O problema é que esse “só mais um pouco” pode representar milhões de reais quando falamos de grandes obras.

Uma obra deficitária não afeta apenas o resultado daquele contrato.

Ela pode consumir capital de giro, pressionar o caixa, dificultar pagamentos a fornecedores e comprometer a capacidade da empresa de tocar outros empreendimentos.

Em situações mais graves, pode até criar um efeito cascata: a empresa precisa usar recursos de uma obra para financiar outra, acumula problemas financeiros e perde capacidade de investimento.

Também existe o impacto sobre a reputação.

Uma empresa que apresenta preços sistematicamente abaixo de sua capacidade de execução pode acabar enfrentando dificuldades para sustentar contratos, cumprir prazos e manter a qualidade esperada.

Por isso, o objetivo não deve ser simplesmente vencer mais licitações.

O objetivo é vencer as licitações certas, pelo preço certo.

O papel da engenharia de custos na precificação

A engenharia de custos fornece a base técnica para essa decisão.

É ela que ajuda a transformar informações dispersas em uma visão clara do custo e da rentabilidade esperada do contrato.

Um processo estruturado pode integrar:

  • orçamento executivo;

  • composição de custos;

  • BDI;

  • análise de riscos;

  • condições contratuais;

  • histórico de licitações;

  • fluxo de caixa;

  • margem mínima;

  • preço mínimo viável.

Com isso, o gestor não precisa depender exclusivamente de experiência ou intuição.

A experiência continua sendo importante, claro.

Mas ela passa a trabalhar junto com os dados.

Outro benefício é o aprendizado acumulado.

Cada licitação analisada gera informações sobre preços, concorrentes, produtividade, custos e resultados. Com o tempo, essa base histórica ajuda a empresa a melhorar suas próximas propostas e a tomar decisões cada vez mais rápidas e precisas.

Quando buscar apoio especializado?

Uma análise profissional pode fazer uma grande diferença quando a empresa participa de licitações de alto valor ou contratos com elevado grau de complexidade.

O apoio especializado é especialmente interessante quando:

  • a empresa tem histórico de contratos com margem abaixo do esperado;

  • existem muitos riscos no edital;

  • os orçamentos precisam ser produzidos em prazos curtos;

  • há dificuldade para definir o BDI;

  • a empresa não possui uma metodologia clara de precificação;

  • existe pressão constante por preços mais competitivos;

  • é necessário analisar o fluxo de caixa antes de apresentar a proposta;

  • a empresa quer criar um processo de análise de licitações que possa ser repetido em diferentes certames.

Em contratos de grande porte, o custo de uma análise especializada costuma ser pequeno diante do impacto financeiro de uma decisão errada.

Conclusão: o melhor desconto é aquele que ainda faz sentido

Definir o desconto ideal em uma licitação não é uma questão de coragem, sorte ou feeling.

É uma questão de conhecer os números.

Quando a empresa sabe quanto a obra realmente custa, entende seu BDI, define uma margem mínima e analisa os riscos e as condições do contrato, consegue entrar na disputa com muito mais segurança.

Isso não significa deixar de ser competitiva.

Pelo contrário.

Uma empresa que conhece seu limite pode ser agressiva quando faz sentido e recuar quando o preço deixa de ser economicamente viável.

Essa disciplina evita um dos maiores erros da construção civil: confundir ganhar uma licitação com fazer um bom negócio.

No fim, o objetivo não é simplesmente oferecer o menor preço.

É encontrar o melhor preço possível sem comprometer a saúde financeira da empresa.

Se a sua empresa quer estruturar melhor a precificação de licitações, analisar os riscos de um edital ou descobrir até onde pode chegar em uma disputa, a Costwise pode ajudar.

Nossa equipe pode apoiar sua empresa com diagnóstico do processo de precificação, análise de licitações, orçamento executivo e consultoria de engenharia de custos.

Entre na disputa sabendo exatamente quanto pode oferecer — e, principalmente, quando é hora de parar.

Perguntas frequentes sobre desconto em licitações

1. Como calcular o desconto ideal em uma licitação?

O primeiro passo é calcular o custo real da obra por meio de um orçamento executivo confiável. Depois, é necessário estruturar o BDI, definir a margem mínima aceitável, analisar os riscos, as condições de pagamento e o comportamento da concorrência. O desconto deve ser definido dentro de uma faixa que mantenha o contrato economicamente viável.

2. O que é BDI e por que ele é importante?

BDI significa Benefícios e Despesas Indiretas. Ele reúne componentes que não estão diretamente no custo de execução, como despesas indiretas, tributos, despesas financeiras, riscos e lucro. Um BDI corretamente estruturado é fundamental para formar um preço de venda coerente.

3. Qual é o risco de oferecer um desconto muito alto?

O principal risco é vencer a licitação com um preço que não cobre adequadamente os custos e a margem necessária. Isso pode transformar o contrato em prejuízo, pressionar o caixa da empresa e comprometer outros projetos.

4. Uma análise de licitação serve apenas para definir o preço?

Não. Uma boa análise também ajuda a decidir se vale a pena participar. O edital deve ser avaliado considerando riscos, prazos, penalidades, condições de pagamento, exigências técnicas e capacidade da empresa de executar o contrato.

5. O desconto ideal é igual em todas as licitações?

Não. O desconto depende do tipo de obra, tamanho do contrato, concorrência, riscos, condições de pagamento, capacidade operacional da empresa e objetivos estratégicos. Por isso, cada licitação deve ser analisada individualmente.

6. Como saber qual é o desconto máximo que a empresa pode oferecer?

É necessário conhecer o custo real da obra e definir a margem mínima aceitável. A partir desses dados, é possível calcular o preço mínimo viável e transformá-lo em um limite de desconto sobre o preço de referência.

7. Vale a pena participar de uma licitação mesmo com uma margem menor?

Depende do contexto. Um contrato pode ter importância estratégica ou ganhos de escala que justifiquem uma margem diferente. Porém, essa decisão deve ser consciente e considerar riscos, fluxo de caixa e capacidade de execução. Margem menor não deve significar margem inexistente.